quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Depressão Causada Por Disfunção Hormonal da Tireoide


Se a tireoide está a funcionar inadequadamente, costumam ocorrer alterações acentuadas no quadro emocional e a pessoa poderá ficar depressiva. Convém estar alerta e fazer os exames necessários. É preciso regulá-la através da medicação adequada. Por isso resolvemos redivulgar a esclarecedora entrevista fornecida a nós por Dr. Mateus Andrea Angelucci, médico psiquiatra e psicoterapeuta, a qual constava no extinto site Vida e Harmonia.

Depressão Motivada Por Disfunção Hormonal

Pergunta: Pedimos que nos oriente sobre a importância dos hormônios tireoideanos.

Dr. Mateus: Os hormônios tireoideanos são muito importantes uma vez que controlam o crescimento e diferenciação das células do organismo e regulam seu metabolismo energético (principalmente do sistema cardiovascular, sistema muscular, sistema nervoso central). Considerando o impacto das doenças de tireóide na vida do indivíduo, a Associação Americana de Tireóide recomenda uma triagem hormonal a cada 5 anos a partir dos 35 anos com o objetivo de se detectar alterações em seu funcionamento.

Pergunta: Quais os hormônios produzidos pela tireóide? O hipotireoidismo pode causar depressão?

Dr. Mateus: A tireóide é uma glândula do corpo humano localizada na parte anterior do pescoço e é responsável pela regularização do metabolismo energético do organismo. Ela produz 2 tipos de hormônios: a tiroxina (T4) e a triiodotironina (T3). O mau funcionamento da tireóide pode produzir vários sintomas físicos e neuropsiquiátricos. Quando houver hipotireoidismo (baixo funcionamento) o indivíduo apresenta ganho de peso, voz rouca, cabelos finos e secos, constipação intestinal, pele seca, bócio ('papo' ou dilatação no pescoço), perda da parte lateral da sobrancelha, inchaço na face, intolerância ao frio, sintomas depressivos e nos casos mais graves, idéias de suicídio e paranóia (crença de estar sendo perseguido). O indivíduo queixa-se de que está fraco, lento para fazer suas atividades diárias, apático, triste e com dificuldades de memória.
  
Pergunta: Vemos pessoas buscando ajuda espiritual para a depressão da qual são vítimas. Já de início, algumas relatam que estão fazendo o tratamento com o psiquiatra, mas que os remédios não fazem efeito. Às vezes, o tratamento vem sendo feito há mais de um ano. Ao questionarmos tais pessoas sobre o exame da tireóide, as mesmas, muitas vezes dizem que o exame da tireóide não foi solicitado. Nossa pergunta é: em todos os casos de depressão é aconselhável fazer o exame da tireóide?

Dr. Mateus: Em todo quadro depressivo é necessário descartar clinica e laboratorialmente causas orgânicas, ou seja,  doenças físicas que possam estar produzindo tal quadro. O hipotireoidismo pode ocasionar um quadro semelhante ao da depressão e neste caso define-se o episódio depressivo como secundário a uma condição médica geral. Desta forma, torna-se obrigatório o tratamento da causa de base (hipotireoidismo) com reposição hormonal.

Pergunta: Vimos um caso em que somente na terceira vez que a paciente fez o exame da tireóide, é que apareceu no resultado a alteração hormonal. É aconselhável então repetir o exame, se a pessoa sentir-se depressiva e o exame não acusar nada?

Dr. Mateus: Em geral, basta somente um exame laboratorial para que se detectem alterações no funcionamento glandular. Os testes de função tireóidea mais comuns são a dosagem de TSH (hormônio estimulador da tireóide) e T4l (tiroxina livre) no sangue. No hipotireoidismo o TSH estará acima dos níveis normais e o T4l estará abaixo. Se houver dúvida quanto ao resultado do exame ou os sinais/sintomas físicos forem muito sugestivos de hipotireoidismo é recomendável que se repita o exame em outro laboratório.


Pergunta: Num outro caso, após intenso tratamento de depressão, sem resultado, a paciente, ao mudar de médico, teve dele o pedido de exame da tireóide. Ficou detectado que a tireóide dela havia atrofiado. Poderia nos fornecer alguma informação sobre esse aspecto? 

Dr. Mateus: Provavelmente, neste caso, a atrofia da tireóide foi causada por um tipo de tireoidite que acontece quando os próprios anticorpos do indivíduo provocam uma inflamação na glândula acabando por destruí-la. Há uma incidência maior em mulheres e a evolução é lenta podendo levar à cura espontânea ou à atrofia glandular com acentuado hipotireoidismo.


Pergunta: Quando a depressão está bem avançada, sendo que o paciente fez inutilmente tratamento alopático com anti-depressivos, mas não foi solicitado o exame da tireóide, se for solicitado nesse estágio avançado e o resultado deixar transparecer que a glândula está realmente com mau funcionamento, a depressão pode desaparecer se a tireóide for tratada adequadamente?

Dr. Mateus: Sim, geralmente há uma remissão total dos sintomas depressivos e físicos com a reposição hormonal, no entanto, cerca de 10% dos pacientes têm sintomas neuropsiquiátricos residuais após o tratamento. Nestes casos, torna-se obrigatório o uso de antidepressivos associado ao tratamento hormonal.
  
Pergunta: Pode ocorrer depressão em homens, devido ao desequilíbrio da tireóide? Se a resposta for afirmativa, existe ou não hormônios para eles?

Dr. Mateus: As doenças da tireóide são mais comuns em mulheres, mas os homens também são acometidos e para ambos o tratamento consiste na reposição hormonal.

Pergunta: Gostaríamos de saber se é verdade que a depressão precisa ser tratada a vida toda.

Dr. Mateus: Em geral, os pacientes que respondem a um determinado antidepressivo devem permanecer recebendo esta medicação por cerca de 6 meses a um ano. O tratamento por este tempo reduz acentuadamente os riscos de recaída. Os pacientes que tiveram 3 ou mais episódios depressivos de gravidade considerável ou que tiverem, pelo menos, dois episódios nos últimos cinco anos devem receber tratamento de manutenção a longo prazo com antidepressivos, além das medidas como psicoterapia, orientações para mudanças no estilo de vida e adequado suporte familiar/social.
  
Pergunta: Soubemos do caso de uma mulher com depressão que não desejou se tratar. Recusou-se a qualquer tipo de tratamento. Após algum tempo ela morreu e os familiares disseram que a causa foi a depressão, que chegou num estágio incontrolável. Isso é mesmo possível? A depressão pode conduzir à morte?

Dr. Mateus: Sim, a depressão pode ser fatal uma vez que o indivíduo passa a não se cuidar adequadamente, pode se envolver com uso de álcool/drogas ilícitas, alimenta-se pouco e sua resistência imunológica tende a se enfraquecer predispondo à outras doenças de natureza infecciosas ou tumorais. Além disso, o deprimido pode cultivar idéias autodestrutivas que levam-no a tentativas de suicídio cada vez mais graves.
  
Pergunta: Quando os sintomas podem ser caracterizados como depressão avançada?

Dr. Mateus: A depressão grave é caracterizada por intensos e persistentes sentimentos negativos (culpa, autodesvalorização, ruína, abandono) associados a idéias/tentativas de suicídio, delírios (interpretações distorcidas da realidade ou falsas crenças a respeito de si mesmo, das pessoas ou do ambiente) ou alucinações (visões e audição de vozes irreais).
  
Pergunta: Como é o tratamento da depressão?

Dr. Mateus: O tratamento da depressão consiste no uso de medicações antidepressivas, psicoterapia e orientação familiar. As medicações agem nos sintomas depressivos retirando o indivíduo da fase aguda da doença; são usadas durante um certo período de tempo para prevenirem recaídas e recorrências. A psicoterapia auxilia o indivíduo a compreender as causas internas (psicológicas) e externas (ambientais) que levaram-no a um episódio depressivo; a psicoterapia promove apoio ao doente em um ambiente de confidencialidade e sigilo. A orientação familiar tem como objetivo esclarecer a família sobre o estado do indivíduo a fim de que esta auxilie-o da melhor forma na superação de suas dificuldades e conflitos.
  
Pergunta: Tem fundamento a idéia de que o ser humano, atualmente, precisa entender um pouco de doenças para questionar o médico que o trata? Temos ouvido queixas constantes a respeito da falta de interação entre médico e paciente. Acha aconselhável o paciente insistir nas informações que deseja?


Dr. Mateus: Acho muito positivo os pacientes buscarem informações sérias e fidedignas sobre tudo o que interessa à sua saúde física e mental. Geralmente os pacientes mais esclarecidos interagem de maneira mais dinâmica com seu médico, questionando-o sobre o diagnóstico e possibilidades de tratamento. O médico, por sua vez, deve estar atento às dúvidas e angústias do paciente e delas extrair o verdadeiro significado que a doença tem para o mesmo.